OBRAS DE MISERICÓRDIA – PERDOAR AS INJÚRIAS

“Há na comunidade uma irmã que tem o talento de me desagradar em todas as coisas; os seus modos, as suas palavras, o seu carácter eram-me muito desagradáveis. No entanto é uma santa religiosa que deve ser muito agradável ao bom Deus; assim, não querendo ceder à antipatia natural que sentia, disse a mim própria que a caridade não devia ser composta por sentimentos, mas por obras. Decidi então fazer por esta irmã aquilo que faria pela pessoa que mais amasse. Cada vez que a encontrava rezava ao Senhor por ela, oferecendo-Lhe todas as suas virtudes e méritos. Sentia que isso agradava a Jesus, pois não existe artista que não goste de receber louvores pelas suas obras e Jesus, o artista das almas, fica feliz quando não nos detemos no exterior mas, penetrando até ao santuário íntimo que Ele escolheu para morar, admiramos a sua beleza.

Não me contentava em rezar muito pela irmã que me suscitava tantos combates, obrigava-me a fazer-lhe todos os favores possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de modo desagradável, contentava-me em lhe fazer o meu sorriso mais amável e fazia por desviar a conversa. […] E também muitas vezes […], tendo algumas relações de trabalho com essa irmã, quando os embates eram demasiado violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava totalmente o que eu sentia por ela, nunca desconfiou dos motivos da minha conduta e continua persuadida de que o seu carácter me agrada. Um dia, no recreio, disse-me mais ou menos estas palavras com um ar muito contente: «Pode dizer-me, irmã Teresa do Menino Jesus, o que a atrai tanto em mim, pois de cada vez que olha para mim vejo-a sorrir?» Ah, o que me atraía era Jesus, escondido no fundo da sua alma. Jesus torna doces as coisas mais amargas.” (Santa Teresinha do Menino Jesus – Manuscrito autobiográfico C 13 v°-14 r°)

 

“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente toda vez que tiverdes queixas contra os outros. Como o Senhor vos perdoou, assim perdoai também vós.” (Col 3, 13)

Perdoar as injúrias. Essa obra de misericórdia espiritual exige um intenso trabalho interior. Ela é essencial para que tenhamos uma boa qualidade de vida. Uma pessoa que não perdoa se afasta da graça de Deus. Talvez se afaste mais do Senhor do que aquela que cometeu a falta. Porque é uma exigência do próprio Deus o ato do perdão. Deus exige que perdoemos. Jesus nos ensina esta lição na oração do Pai Nosso, mas também nos instrui na parábola do Rei que perdoa uma fortuna impagável ao seu empregado e este, uma vez perdoado, manda prender seu colega que o devia uma pequena quantia. Jesus ainda é enfático quando fala de um único pré-requisito para nos apresentarmos diante de Deus: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão e, depois, vem e apresenta a tua oferta. Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão.” (Mt 5,23-25)

         A Palavra divina é exigente e talvez estas passagens sejam das mais difíceis de se colocar em prática. Mas somos filhos de Deus e como filhos recebemos Dele a graça para vivermos a sua Palavra. A Bíblia não é um conjunto de leis mortas, mas Palavra Viva, eficaz e capaz de nos converter. A força para o perdão vem de Deus. O que brota de nós é a decisão de perdoar e a disposição de viver de forma coerente com a fé que abraçamos. É próprio de Deus perdoar e por sermos filhos de Deus é que escolhemos ser como Ele e agir conforme nosso Pai e Mestre. Em Jesus, Deus manifestou o apogeu do perdão. Nenhum outro motivo deve ser a motivação para o perdão cristão. Perdoamos pela força do Espírito Santo, porque somos filhos de Deus e redimidos em Jesus.

         Santa Teresinha é uma doutora do perdão. Talvez haja quem pense que perdoar coisas pequenas e corriqueiras é bem mais fácil que perdoar um crime ou uma atrocidade. E isto é verdade, mas Santa Teresinha é mestra justamente por nos abrir uma escola, um caminho seguro. É perdoando as pequenas injúrias, é perdoando todos os dias, é perdoando os mais próximos que treinamos o nosso íntimo para perdoar sempre. Não se trata de sentimento como Teresinha escreve. O que importa não é o sentir e sim de agir. O perdão é uma decisão e não um sentimento. Nossos sentimentos causados por algo que nos foi feito devem ser respeitados, mas devemos agir segundo o Evangelho e não segundo nossos sentimentos. A Palavra libertadora de Jesus é bem contundente: “Eis como deveis rezar: Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos aos que nos ofenderam; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal. Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará.” (Mt 6, 9-15)

         Ofendemos a Deus sempre e por isso precisamos de seu perdão. Santa Teresinha também nos ensina muito sobre ter consciência de nossa pequenez. Para entendermos o nosso “tamanho” precisamos começar pela condição de filhos muito amados de Deus, mas pecadores. Muito pecadores. O Espírito Santo nos mostra através de nossa consciência o quanto nos distanciamos da beleza de nosso Pai através do pecado. Se somos pecadores, e esta é a nossa condição, precisamos constantemente do perdão de Deus. Deus é o perdão fiel e a misericórdia sem fim. Basta voltarmos arrependidos a Ele e seremos envolvidos pelo seu perdão pleno. A única condição que nos é exigida é justamente agirmos da mesma forma com nossos semelhantes.

Perdoar liberta a alma e a vida de quem perdoa. Perdoar nos desata para ter acesso ao perdão de Deus. Perdoar é ter a leveza de nos aproximar do Amor. É seguir adiante sem ficar preso por nada nem ninguém. É tomar a própria vida como um dom maravilhoso que não pode ficar aprisionado por mágoas e ressentimentos. A falta do perdão nos congela no passado e retém nossas energias em um lugar sombrio e sem vida. O perdão nos emancipa para vivermos com alegria todos os dons que Deus derrama sem cessar diante de nós. Se estamos apegados ao passado, nosso olhar fica desviado e não conseguimos enxergar as maravilhas divinas do presente.

Teresinha também nos fala dessa graça do presente, que só é capaz de vive-la quem se livrou das mágoas do passado. Ela diz assim:

A minha vida é um só instante, uma hora passageira

A minha vida é um só dia que me escapa e me foge

Tu sabes, ó meu Deus! Para amar-Te na terra

Só tenho o dia de hoje!…

Lembrando de nossa pequenez, o sacramento da Reconciliação é uma graça imensa que temos para buscar a unidade com o Senhor. Confessar com frequência nos ajuda a estreitar nossa consciência, evitar os pecados mortais e nos fortalecer na luta contra os veniais. Mas para buscarmos a reconciliação com Deus não podemos nos portar como aquele empregado que deseja o perdão do Rei, mas sufoca seu irmão sem perdoar-lhe sua dívida para com ele. Santo Agostinho nos ensina que “Quem negar seu perdão ao irmão não espere receber os frutos de sua oração”.

Devemos ainda pensar no combate espiritual. A falta de perdão é uma brecha para o inimigo de Deus em nossa vida: “Mesmo em cólera, não pequeis. Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento. Não deis lugar ao demônio”.(Ef 4, 26-27)

Peçamos a Santa Teresinha que nos aceite em sua escola. Perdoar de todo coração desde as menores coisas, buscando agir sempre segundo a caridade que há em nosso íntimo e não segundo a superficialidade de nossos afetos. O Papa Francisco também nos recorda que o perdão é um processo: “A fé afirma também a possibilidade do perdão, que muitas vezes requer tempo, canseira, paciência e empenho; um perdão possível quando se descobre que o bem é sempre mais originário e mais forte que o mal, que a palavra com que Deus afirma a nossa vida é mais profunda do que todas as nossas negações”.

Recordemos São João Paulo II que visitou aquele que atirou contra ele com o intuito de assassiná-lo. O turco, Mehmet Ali Agca feriu gravemente o Papa João Paulo II em 13 de maio de 1981 na Praça de São Pedro, em Roma. Ele conseguiu ficar a cerca de 7 metros de distância do pontífice, sacou sua pistola e disparou várias vezes. São João Paulo foi atingido no abdômen, no cotovelo direito e no dedo indicador da mão esquerda. O Papa perdeu muito sangue e chegou ao hospital inconsciente. Foi submetido a uma cirurgia de mais de cinco horas para retirar parte do intestino e ficou internado vários dias. Dois anos depois, João Paulo II o visitou na cadeia nos dando a prova de seu perdão, uma vivência estrita do Evangelho.

Que o testemunho desse santo nos mova e que o nosso coração seja cada dia mais dilatado pela força da Palavra de Deus. Que o amor vença sempre, que a caridade triunfe e a misericórdia seja uma constante em nossas vidas. Amém.

“A prática do perdão, a exemplo de Jesus, desafia e abre os corações, cura as feridas do pecado e da divisão e gera uma verdadeira comunhão”. (São João Paulo II)

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Anajúlia Gabino Mendes

Formadora Geral da comunidade e consagrada da comunidade de vida. Casada com Rodrigo Serva Maciel nosso fundador