OBRAS DE MISERICÓRDIA – DAR POUSADA AOS PEREGRINOS

“Em 1871 tiveram a cidade invadida pelos Prussianos que lutavam contra a França. Luís e Zelia hospedaram nove soldados em casa. Após uma tentativa de furto na relojoaria, Luís denuncia o soldado. Depois, sabendo que poderia ser executado, voltou atrás e pediu o perdão dos superiores para este soldado.” (Da história da família de Santa Teresinha do Menino Jesus)

 

“… era estrangeiro, e hospedastes-me…” (Mt 25,35)

 

Dar pousada aos peregrinos. Uma obra de misericórdia tão urgente no mundo da crise migratória. Ao final do ano passado, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) estimou em 65,6 milhões de vítimas do deslocamento forçado. O índice, que já era um recorde, tende a se agravar. Em 2017, mais de 2 milhões de pessoas foram forçadas a deixar seus países como refugiados. Eles geralmente chegam doentes, traumatizados, famintos, em regiões fronteiriças remotas, em comunidades assoladas pela pobreza e pelo subdesenvolvimento. Dentro desta realidade tão sofrida de fuga de situações extremas e encontro com a fome, a falta de moradia, epidemias, travessias ilegais, naufrágios, falta de higiene e tantas outras calamidades, há ainda uma situação mais cruel que se estampa nas crianças. Os menores são muitas vezes separados dos pais por situações variadas inclusive a morte de seus progenitores, são alvo de abusos sexuais e violências e não tem acesso a educação.

O Papa Francisco, tão atento aos sofrimentos da humanidade, afirmou em Março deste ano: “não devemos esquecer que o problema dos refugiados, dos imigrantes é hoje a maior tragédia depois da Segunda Guerra Mundial”.

Esta imagem de uma criança síria morta em uma praia da Turquia em Setembro de 2015 foi um símbolo da crise migratória. Mas o drama continua, as mortes e o descaso com as pessoas que são forçadas a saírem de seus países infelizmente permanecem.

Não é só a Europa que deve ouvir esse clamor. Todos somos chamados a essa obra de misericórdia! Pode ser que não haja refugiados na sua porta nem em sua cidade, mas certamente há pessoas com necessidades de hospedagem em vistas de um tratamento ou de uma consulta ou mesmo por um tempo específico de tribulação. As necessidades podem ser variadas, o que não varia é o sujeito de nosso amor: Jesus, que deve ser amado naquele que precisa de pouso.

 

Não vos esqueçais da hospitalidade, porque por ela alguns, não o sabendo, hospedaram anjos.” Hb 13,2

 

Essa obra de misericórdia é exigente porque nos desinstala e nos tira da comodidade e do egoísmo. Mas como todo sacrifício feito por Deus, recebemos uma recompensa muito superior: hospedar anjos quer dizer abrir as portas da nossa casa para o Próprio Deus.
Abraão fez exatamente essa experiência ao acolher três peregrinos no Mambré. Ao recebê-los e oferecer-lhes pouso, água, comida e refrigério, acolheu três peregrinos mas na verdade recebeu a visita da Santíssima Trindade e a prova desta graça é que sua esposa, tida por estéril, logo engravidou. A benção recebida por aquele casal de gerar uma vida é o sinal da visita divina.
Os discípulos de Emaús também acolheram um peregrino que conversava com eles no caminho. Ofereceram pouso e refeição, e foi justamente no partir do pão que reconheceram a presença de Jesus Ressuscitado. A partir dali, todo desânimo e tristeza que eles traziam em seus corações se converteram em profunda alegria e entusiasmo. Mais uma vez é manifesto o prodígio de Jesus presente no hóspede.
O relato sobre os santos Luis e Zélia nos conta que eles abriram as portas da casa deles para hospedar nove soldados. Abrir o lar exige primeiramente uma abertura interior. Sabemos que esse santo casal tinha uma condição econômica tranquila, mas é preciso muito mais que qualidades monetárias para acolher um peregrino. É preciso generosidade e largueza de alma.

São Bento nos ensina muito sobre a hospitalidade: “Todos os hóspedes que vêm ao mosteiro são recebidos como o próprio Cristo, porquanto ele dirá um dia: “Fui hóspede e me recebestes”. São concedidas a cada um as honras devidas, especialmente aos que professam a fé e aos peregrinos. Logo que se houver anunciado a chegada de um hóspede, o superior e os irmãos vão ao seu encontro com toda a solicitude da caridade. Primeiro rezam junto e em seguida dão-se mutuamente a paz. Este beijo da paz não deve ser dado antes da oração por causa das ilusões do diabo. Na maneira de saudar os hóspedes, procede-se com toda a humildade. Diante de todos aqueles que chegam ou partem inclina-se a cabeça ou mesmo, prostra-se inteiramente em terra, adorando o Cristo que neles se recebe. Assim acolhidos, os hóspedes são conduzidos à oração; depois, o superior ou aquele que este houver determinado, assenta-se com eles. Leia-se em sua presença a lei divina para edificá-los, concedendo-lhes, depois, todos os deveres da caridade. O superior quebra o jejum à chegada de um hóspede, a não ser que se trate de um dos principais jejuns, que não se pode violar. Quanto aos irmãos, continuam a observar os jejuns. O abade serve aos hóspedes a água para lavar as mãos; mas os pés de todos os hóspedes são lavados tanto pelo abade como por toda a comunidade. Depois de os haverem lavado, dizem este versículo: “Recebemos, Senhor, vossa misericórdia no meio de vosso templo”. São recebidos com todo o cuidado e solicitude particular os pobres e peregrinos, por ser principalmente na pessoa deles que se recebe o Cristo; no que diz respeito aos ricos, o temor que inspiram já obriga a honrá-los” (Capítulo 53 da Regra de São Bento)
Uma lição maravilhosa que São Bento nos oferta é sobre o testemunho diante daquele que recebemos. É primordial oferecer um local de fé e oração. Um lugar de escuta e acolhimento sincero. Não se trata de substituir um albergue ou um hotel, mas de abrir o coração para receber quem está precisando de pouso.

Que Deus nos ajude a alargar os portais de nosso coração para receber Jesus peregrino. Que a graça de Deus nos conceda generosidade e boas condições para abrirmos as portas de nossos lares a Jesus hóspede. Que as antigas portas, estreitas e limitadas, sejam alargadas pela ação do Santo Espírito em nossa vida. Que todo comodismo, egoísmo e medo sejam expulsos de nosso interior.

Invoquemos a intercessão da família de Marta, Maria e Lázaro. Que estes santos intercedam por nós e nos ensinem a acolher Jesus em quem precisa de pouso.

Que Maria nos ajude a termos uma escuta atenta e devota semelhante à dela.

Que Marta interceda para que nosso trabalho seja esmero e generoso como aquele que ela prestou ao Senhor Jesus.

E que Lázaro rogue a Jesus por nós para que nosso testemunho seja forte e eloquente tal qual foi o dele. Amém

Enquanto nos sentirmos impotentes diante das tragédias não contribuiremos para um mundo novo. É tempo de esperança! Um cristão deve sempre ter esperança e trabalhar pelo bem. Mesmo que sua contribuição pareça uma gota no oceano…

“O que eu faço é uma gota no meio de um oceano. Mas sem ela, o oceano será menor.” (Madre Teresa de Calcutá)

“Um homem ou uma sociedade que não reaja diante das tribulações ou das injustiças e se não esforce por as aliviar, não é um homem ou uma sociedade à medida do amor do Coração de Cristo. Os cristãos – conservando sempre a mais ampla liberdade quando se trata de estudar e de pôr em prática as diversas soluções, segundo um pluralismo bem natural – terão de convergir no mesmo anseio de servir a humanidade. Se não, o seu cristianismo não será a Palavra e a Vida de Jesus: será um disfarce, um embuste feito a Deus e aos homens.” (Josemaria Escrivá)

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Anajúlia Gabino Mendes

Formadora Geral da comunidade e consagrada da comunidade de vida. Casada com Rodrigo Serva Maciel nosso fundador