OBRAS DE MISERICÓRDIA – CONSOLAR OS TRISTES

“Era tão pequena que, apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava erguer a cabeça para o avistar de cima, e parecia-me muito grande… muito triste… Quinze anos mais tarde, estive diante de outro esquife, o da Madre Genoveva. Tinha a mesma medida que o da Mamãe, e julguei estar ainda nos dias de minha infância! … Todas ás minhas reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma Teresinha que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe pequeno. Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia senão para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as suas provações tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara para sempre…”

“Oh, Teresa!”, disse-me, “não desce, te causará tristeza demais olhar já teus sapatos”. Mas Teresa não era mais a mesma, Jesus havia mudado o coração dela! Reprimindo minhas lágrimas, desci rapidamente e, comprimindo as batidas do coração, peguei meus sapatos… então, colocando-os diante de papai, tirei alegremente todos os objetos, parecendo feliz como uma rainha. Papai ria também, voltara a ficar alegre e Celina pensava sonhar!… Felizmente, era uma doce realidade. Teresinha reencontrar a força de alma que perdera aos 4 anos e meio e ia conservar para sempre!…

“Uma palavra, um sorriso amável são muitas vezes suficientes para alegrar uma alma triste.” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

“Pois a tristeza apressa a morte, tira o vigor, e o desgosto do coração faz inclinar a cabeça” (Eclo 38, 19)

“Consolai, consolai meu povo, diz o Senhor” (Is 40, 1)

 

A tristeza é uma experiência emocional intrínseca à natureza humana. Está sempre associada a alguma dor seja ela física, psíquica, afetiva ou até existencial. A Palavra de Deus nos esclarece que há uma “tristeza que vem de Deus produz arrependimento e leva para a salvação”, mas há também uma “tristeza segundo este mundo que produz a morte.” (2 Cor 7,10). Algumas vezes consolar significa fazer companhia, manifestar amizade. Outras vezes, só será possível consolar ajudando o irmão a sair de si e romper com o ciclo de tristeza em que se encontra.  Outras vezes ainda, quando a pessoa se encontra em um estado de adoecimento psíquico severo, é preciso munir-se de caridosa paciência e encontrar caminhos para ajudar o irmão a avançar rumo à alegria que vem de Deus. Seja como for, a tristeza está presente em diversas experiências humanas e, nelas, Jesus espera ser consolado.

A tristeza, como sabemos, não é ruim. Não sentir tristeza seria um estado patológico da alma. A tristeza, antes de tudo, é humana. Jesus também se entristeceu e até chorou a morte de seu amigo Lázaro; Ele se lamentou sobre a cidade de Jerusalém que não reconheceu o dia em que foi visitada. Mas, tão patológico quanto não ser capaz de entristecer-se é manter-se prisioneiro da tristeza que acaba por tornar-se um estado permanente. Foi Jesus também quem encorajou seus discípulos avisando de antemão que, por ocasião de Sua morte, eles viveriam uma grande tristeza, mas que esta tristeza se transformaria em alegria. É aqui que encontramos o segredo de Jesus para praticarmos esta obra de misericórdia espiritual de consolar os tristes: na ressurreição de Jesus está razão e a fonte de toda a alegria. Jesus venceu o mal, o pecado, o demônio e a morte. Podemos nos alegrar! Foi justamente este dom que o Senhor ressuscitado derramou sobre Maria Madalena que chorava desconsolada diante do sepulcro vazio. ‘Alegrai-vos!’ disse a Maria o Senhor. E, naquela hora, toda a tristeza se mudou em alegria. Com a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, os discípulos foram mergulhados de forma plena na ressurreição de Jesus. Ele enviou o Paráclito, ou seja, o Consolador para que pudesse habitar e mover os corações dos filhos de Deus.

A palavra paráclito ou paracleto vêm do grego koiné παράκλητος (paráklētos – que pode significar “aquele que consola ou conforta; aquele que encoraja e reanima; aquele que revive; aquele que intercede em nosso favor como um defensor numa corte” ou mesmo “chamado para o lado de alguém”. O Espírito Santo, alma da Igreja, é Aquele que se coloca ao nosso lado sendo ‘o consolo em pessoa’. Tendo o Espírito Santo como consolador de nossas almas, somos portadores do consolo de Deus que traz esperança e alegria à alma e liberta de todas prisões.

Você é chamado (a) a ser também um paráclito, um consolador na vida de tantas pessoas que experimentam a tristeza. Mas antes de tudo é preciso fazer a renovada experiência do consolo que vem de Deus e, tantas vezes, como ensina Teresinha nos trechos acima citados, acolher a graça do amadurecimento humano e espiritual para deixar de chorar e passar a consolar. Jesus confia a você a missão de estar ao lado de quem sofre e ofertar o consolo que nem sempre se comunica com palavras, mas sobretudo com a presença.

Para praticar esta obra em favor dos irmãos é preciso recordar, dentre tantos outros santos, São Francisco e Santa Teresa de Calcutá. São Francisco nos ensina a rezar:

“Senhor, fazei que eu procu

 

re mais consolar que ser consolado”

Madre Teresa nos ensina algo semelhante:

“Senhor, quando eu precisar de consolo, dai-me alguém para consolar.”

Com estes grandes mestres da caridade aprendemos que para praticar a obra de misericórdia é preciso esquecer-se de si e caminhar ao encontro do outro. Há muitas pessoas tristes sobretudo por não conhecerem Jesus. Somos ‘pneumatóforos’ somos portadores do Espírito. Não podemos deixar de oferecer Jesus vivo aos irmãos.

 

 

 

Estas crianças estavam a espera da missa. Suas famílias se prepararam para celebrar às 8h, mas foi um erro de comunicação. A missa seria celebrada apen

 

 

 

 

as em uma comunidade vizinha. Para não desapontar ainda mais quem havia se preparado para participar da celebração da Eucaristia e do batismo, o sacerdote

 

disse que voltaria à tarde orientando-os à voltarem para suas casas. Seja pela distância, seja porque não havia o que fazer ou comer em casa, os cristãos permaneceram ali ao redor da capela até às 14h, quando o padre chegou para conferir a documentação para os batizados, receber o dízimo e então celebrar. Obviamente estavam todos cansados e sem almoço. Eu também estava cansada e com fome, mas minha fome e cansaço não podiam ser comparados com a vivência deles.

Senti-me compadecida das crianças e chamei-as para um canto. Começamos a nos comunicar como podíamos. Elas achavam tudo muito engraçado. Rimos bastante enquanto cantávamos, brincávamos e filmávamos o que fazíamos. Assistir aos nossos vídeos era sem dúvida o que trazia mais alegria. Estas crianças não me disseram que estavam tristes. Mas ficaram desapontadas juntamente com suas famílias com a confusão do horário da missa que ocorre duas ou três vezes no ano. Entretanto, vivemos juntas uma experiência tão consoladora, que superou todo abatimento. Consolador desceu sobre nós em profusão.

“Compreendo as pessoas que se vergam à tristeza por causa das graves dificuldades que têm de suportar, mas aos poucos é preciso permitir que a alegria da fé comece a despertar, como uma secreta mas firme confiança, mesmo no meio das piores angústias”

“A nossa tristeza infinita só se cura com um amor infinito”. (Papa Francisco, Evangelli Gaudium)

 

 

 

 

 

 

Rezemos com Santa Teresa de Calcutá

 

 

 

Senhor, quando eu tiver fome,

dai-me alguém que necessite de comida.

Quando tiver sede,

dai-me alguém que precise de água.

Quando sentir frio,

dai-me alguém que necessite de calor.

Quando tiver um aborrecimento,

dai-me alguém que necessite de consolo.

Quando minha cruz parecer pesada,

deixe-me compartilhar a cruz do outro.

Quando me achar pobre,

ponde a meu lado alguém necessitado.

Quanto não tiver tempo,

dai-me alguém que precise

de alguns dos meus minutos.

Quando sofrer humilhação,

dai-me ocasião para elogiar alguém.

Quando estiver desanimada,

dai-me alguém para lhe dar novo ânimo.

Quando sentir a necessidade

da compreensão dos outros,

dai-me alguém que necessite da minha.

Quando sentir necessidade de que cuidem de mim,

dai-me alguém que eu tenha de atender.

Quando pensar em mim mesma,

voltai minha atenção para outra pessoa.

Tornai-nos dignos, Senhor,

de servir nossos irmãos

que vivem e morrem pobres e com fome,

no mundo de hoje.

Dai-lhes, através das nossas mãos,

o pão de cada dia e dai-lhes,

graças ao nosso amor compassivo,

a paz e a alegria.

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.