OBRAS DE MISERICÓRDIA – DAR DE COMER A QUEM TEM FOME

“Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura.” (Evangelho de São Marcos 16, 15)

Esta é a ordem dada por Jesus aos Onze antes de subir ao céu. O Senhor partilhou a própria missão com aqueles que escolhera para estar mais próximo de Si. Mergulhando no mistério da morte humana e ressuscitando após três dias, dirige a palavra aos apóstolos ordenando-lhes que continuem a missão inaugurada por Ele mesmo. A Igreja, desde seus primórdios, assumiu a tarefa de levar adiante a missão do Redentor ‘para que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade’.
Em grande parte do mundo, a Igreja Católica celebra outubro como “Mês das Missões” para recordar o dever de todo batizado de colaborar para a missão universal da Igreja com a oração e a ajuda econômica. Outubro foi escolhido como mês missionário por recordar o descobrimento da América, que abriu uma nova página na história da evangelização. O mês de outubro tem o seu ápice na celebração do Dia Mundial das Missões no terceiro domingo do mês. Esta comemoração foi criada em 1926 pelo Papa Pio XI.
A missão da Igreja, sendo única, precisa corresponder às necessidades de cada tempo e lugar e, sob a guia do sucessor de Pedro, quer levar a todos os homens a Boa Nova do Reino. No ano de 1990, São João Paulo II na carta Encíclica Redemptoris Missio apresentou uma visão realista que interpela todos os batizados a dar uma resposta: “a missão de Cristo Redentor, confiada à Igreja, está ainda bem longe do seu pleno cumprimento. No termo do segundo milênio, após a Sua vinda, uma visão de conjunto da humanidade mostra que tal missão está ainda no começo, e que devemos empenhar-nos com todas as forças no seu serviço” (RM 1)
Temos mais vinte séculos de vida missionária, mas estamos no começo e devemos nos empenhar com todas as forças.
Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium do Papa Francisco sobre o anúncio do evangelho no mundo atual logo nos seus primeiros números recorda que tal serviço é uma alegre resposta:

“A Alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. (…)

O grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada. Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, já não se ouve a voz de Deus, já não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. (…)

Convido todo o cristão, em qualquer lugar e situação que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decisão de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. Não há motivo para alguém poder pensar que este convite não lhe diz respeito, já que «da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído». Quem arrisca, o Senhor não o desilude; e, quando alguém dá um pequeno passo em direção a Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada. ” (EG 1-3)

É uma grande honra ser filho (a) da Igreja e destinatário (a) destas palavras. O Santo Padre, o Papa para falar da evangelização no mundo atual começa por exortar a todos a renovar hoje mesmo o encontro pessoal com Jesus Cristo. As palavras de Francisco deixam a marca da atualidade. Cada dia nos convida a ‘hoje mesmo’ renovar o encontro com o Senhor.
Um grande marco desta palavra que Francisco dirige à Igreja é ‘sair’ para corresponder ao ‘ide’ proposto por Jesus:

“Naquele «ide» de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.” (EG 20)

‘Sentindo com a Igreja’, a partir de nosso carisma devemos neste mês dedicado à missão renovar nossa disposição e atitude missionária respondendo prontamente às necessidades da Igreja a partir do chamado que Deus fez a nós:

A missão da Comunidade Católica Árvore da Vida é amar a Jesus tal como uma esposa ama seu esposo. Sabendo que o Esposo se encontra nesse mundo ainda na forma de um corpo partido, chagado, ferido em cada rosto sofredor na humanidade, podemos dizer também que nossa missão é curar as feridas de Cristo, aliviar suas dores cuidando carinhosamente do Esposo, amando os mais pobres, os doentes, os viciados, os famintos e todos os que hoje são o corpo sofrido de Jesus.

Esse é o impulso que recebemos do Espírito Santo para servir: um profundo Amor por Jesus Cristo, e Jesus Crucificado. Não servimos a Deus por termos que servir ou porque Ele nos chama a isso pura e simplesmente, mas o chamado a servi-Lo está imbuído de um grande Amor por seu Filho. Nosso coração se compadece de Jesus Crucificado e não suporta vê-Lo à morte sem nada fazer. O Espírito nos impulsiona a amar a Jesus que ainda sofre hoje. Sofre porque Ele é a Cabeça inseparável de seu Corpo, que é a Igreja (cf. Cl 1,18). E seu Corpo padece profundamente na miséria, na violência, na injustiça, no paganismo, no egoísmo, em todos os males que afligem a humanidade. ” (Rodrigo Serva Maciel, Segredo da Fenda 11-12)

Nossa missão é amar com amor esponsal, é sermos apaixonados por Jesus. E, como ensina Teresinha, dar provas deste amor. O amor é provado quando saímos… na direção do Outro a quem amamos. Só o amor move a missão. Não há amor verdadeiro que não seja missionário.
Neste mês de outubro, além de celebrarmos a Solenidade de Santa Teresinha, alma profundamente apaixonada por Jesus, celebramos também Santa Faustina, apóstola da Misericórdia e Santa Margarida Maria, apóstola do Coração de Jesus. Na companhia destas grandes mulheres, desejamos que se renove profundamente nosso amor por Jesus e assim sejamos impulsionados a curar Seu Corpo Ferido.
Iremos meditar ao longo deste mês cada uma das obras de misericórdia corporais e espirituais a fim de que a meditação sobre as feridas da humanidade nos lance em uma oferta cada vez mais generosa e ousada na missão que Deus nos confia.

“O Carisma Árvore da Vida existe na Igreja para isso, para ir às periferias da existência. (…) “Vamos às periferias da existência!” é o grande convite que Jesus nos faz desde nossa fundação, tornado tão claro através de seu servo, o Papa Francisco, que deu a toda a Igreja essa expressão desde o início de seu Pontificado: “Evangelizar significa na Igreja a afirmação de sair de si mesma. A Igreja está convocada a sair de si mesma e a ir em direção às periferias, não apenas as geográficas, mas também as periferias existenciais: as do mistério do pecado, as da dor, as da injustiça, as da ignorância e da prescindência religiosa, as do pensamento, as de toda a miséria” (Catequese de 27 de março de 2013, primeira do pontificado).” (Rodrigo Serva Maciel, Segredo da Fenda 276-277)

 

DAR DE COMER A QUEM TEM FOME

“Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola, ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virar-se para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim, e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: “Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão”. Cumpri a promessa cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros sofredores…” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

“… tive fome, e me destes de comer…” (Mt 25,35b)

A fome no mundo ainda é uma dura realidade. Em relatório sobre o estado de insegurança alimentar no mundo divulgado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) em setembro de 2014, cerca de 805 milhões de pessoas, ou seja, uma em cada nove, passavam fome.
O que é a fome? É sensação fisiológica através da qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter as atividades inerentes à vida. A fome é, portanto, um sinal que aponta para uma necessidade: a de comer. Se não há alimento disponível, o corpo sofre gradativamente severas consequências. As consequências imediatas são a perda de peso levando ao aparecimento de problemas no desenvolvimento das crianças, geralmente limitando as suas capacidades de aprendizagem e produtividade. A desnutrição, principalmente devido à falta de alimentos energéticos e proteínas, faz crescer a taxa de mortalidade pela perda da capacidade de combater as infecções e pelo enfraquecimento crônico e severo do organismo.
Entre as causas sociais da fome temos: a instabilidade política, a ineficácia e má administração dos recursos naturais, a guerra, os conflitos civis, as invasões, a injusta e a antidemocrática estrutura fundiária, marcada pela concentração da propriedade das terras nas mãos de poucos, o contraste na concentração da renda, a destruição deliberada das colheitas, a influência das empresas transnacionais de alimentos na produção agrícola e nos hábitos alimentares das populações de Terceiro Mundo, o difícil acesso aos meios de produção pelos trabalhadores rurais, a canalização dos recursos financeiros para a produção de materiais bélicos, epidemias, catástrofes naturais, dentre outros.
O Papa Francisco em carta enviada ao diretor geral da FAO em outubro de 2014 por ocasião da Jornada mundial da Alimentação fez alguns apontamentos extremamente importantes: “apesar dos avanços em muitos países, os últimos dados continuam apresentando uma situação inquietante, agravada pela diminuição geral das ajudas públicas ao desenvolvimento”. Esta Jornada “ecoa o grito de tantos irmãos e irmãs nossos que, em diversas partes do mundo, não têm o pão de cada dia“. A Jornada mundial da Alimentação “nos faz pensar na enorme quantidade de alimentos desperdiçados, nos produtos que são destruídos, na especulação com os preços em nome do deus lucro“. Segundo o papa, este é “um dos paradoxos mais dramáticos do nosso tempo, ao qual assistimos com impotência e, frequentemente, também com indiferença“. Mas Francisco olha para além dos dados, indicando que “há um aspecto importante do problema que ainda não recebeu a devida consideração nas políticas e nos planejamentos de ação: quem sofre a insegurança alimentar e a desnutrição são pessoas e não números, e, precisamente por causa da sua dignidade como pessoas, elas estão acima de qualquer cálculo ou projeto econômico“. É simples, lógico e maravilhoso o que o Papa afirma. A questão não são os números, mas sim as pessoas. Os números não passam fome, mas sim crianças, jovens, mães, pais, idosos.
A situação de fome vivida por tantos irmãos, assim como todo o mal no mundo, é consequência do pecado. Assim nos ensina o Catecismo da Igreja Católica: o pecado torna os homens cúmplices uns dos outros, faz reinar entre eles a concupiscência, a violência e a injustiça. Os pecados provocam situações sociais e instituições contrárias à Bondade divina; as «estruturas de pecado» são expressão e efeito dos pecados pessoais e induzem as suas vítimas a que, por sua vez, cometam o mal. Constituem, em sentido analógico, um «pecado social» (CIC 1869).
A solução para o problema da fome está antes de tudo no coração dos homens.
Neste mês das missões, tempo de renovar a disposição de sair de si, reconheçamos que fazemos parte de uma imensa comunidade humana e peçamos perdão a Deus pelo escândalo da fome. Supliquemos a graça da conversão de nossos corações para que o desperdício e o consumismo nunca mais façam parte de nossas vidas e que sintamos dor no coração e grande compaixão por aqueles que neste dia não tem o pão de cada dia. Rezemos por aqueles que promovem as guerras, pelos poderes públicos, pelas grandes potências que exploram os países pobres, pelo coração do homem corrompido pelo egoísmo…
Se nosso coração for como o de Teresinha, olharemos para esta família que passa fome e diremos: são meus pobres, é minha família. A pequena Judite foi salva da morte através da doação de latas de leite. Sua mãe e seus irmãos ainda passam fome. Foram abandonados pelo pai e não tem onde plantar para ter alguma colheita. São ajudados pela avó e pelo tio que também são muito pobres. Preparam xima com o milho que ganham e comem com um molho de folhas de abóbora que cozinham na água. Os números não passam fome… quem passa fome é Genita, Judite e outras milhares de crianças…
Jesus, fere meu coração de amor. Que eu possa saciar Vossa fome!

“E por isso, confiando em Vossa misericórdia

Caminho pela vida como uma criança,

E faço-Vos, diariamente, o sacrifício do meu coração

Inflamado de amor pela Vossa maior glória”

Santa Faustina, Diário – Caderno 1, 2

 

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.