O dom do Celibato

“O Reino dos Céus é como a história do rei que que preparou a festa de casamento do seu filho…” Mt 22, 2

“A escolha do celibato consiste essencialmente no amor, inicia-se e cumpre-se no amar, nasce da descoberta contemplativa-experiencial do amor”

“(…) o celibato por causa do Reino dos céus é um dom particular que Deus concede a alguns para testemunhar a todos a superioridade do amor divino sobre o humano’ (Amedeo Cencini)

 

Hoje completa-se exatos 6 anos desde que a vida celibatária foi inaugurada em nosso Carisma. Um caminho acabava de ser aberto com as bênçãos de Santa Teresa. Um caminho de aprendizado e oferta se aprofundava.

A vida celibatária pelo Reino de Deus é um dom testemunhado por primeiro pelo próprio Senhor. Todo entregue ao Pai e aos homens, Jesus escolheu renunciar aos laços exclusivos em suas relações para abrir-se a todos e não excluir ninguém. Escolheu amar não com aqueles critérios de benevolência e simpatia apenas humanas que excluem um e preferem outro com base na inclinação natural. Jesus demonstrava com clareza a centralidade da Sua relação com Deus e sua paixão por cada irmão e irmã.

Nos tempos modernos (mas também em outros tempos) celibato é uma verdade desacreditada. Propô-lo como um caminho de plenitude e liberdade é um desafio que só pode ser superado por um testemunho forte e credível. O celibato é o chamado à pobreza e à liberdade radical que são consequência de uma paixão por Deus. Em nosso contexto, a paixão é um amor intenso e criativo, total e totalizante, sem limites nem restrições, condições ou reservas. É natural que a criatura se apaixone pelo Criador. Aliás, só aquele que é amor sem limites pode ser amado sem limites, só a bondade e ternura infinitas pode ser amada totalmente. Ora, na origem de toda paixão não se considera o ‘eu’ mas o ‘tu’. Quem se apaixona, sofre a ação do outro, é passivo em relação ao outro, é atraído. No caso do celibatário, isto se torna mais evidente, pois é Deus quem toma a iniciativa, é Ele quem está apaixonado e como – e ainda mais do que – todos os apaixonados, seduz. Todavia, não é como acontece com frequência com a sedução humana que encanta mas, tantas vezes engana, perde-se no que é superficial, ‘cor de rosa’, acabando por esconder o que há de áspero na realidade. Deus seduz com a prova, com o convite a uma renúncia que requer o sacrifício do filho, que chama ao deserto… Esta foi a sedução vivida por Abraão, Jeremias, Oséias, Pedro… esta sedução é muitas vezes rejeitada por quem teme a prova e foge da solidão… Este jamais será um apaixonado por Deus, pois não fará a experiência de que a prova purifica e nos conduz a estar sozinhos com Aquele que está apaixonado por nós.

Apaixonar-se significa amar de todo coração, com toda a mente com todas as forças. Para apaixonar-se por Deus é preciso fazê-lo com a decisão e a ação, a razão e a sensibilidade, o coração, as mãos, os pés, a alma e o corpo. É preciso empenhar toda a vida e cada batida do coração, pois Deus é o mais amável dos seres… a consequência disso é que o apaixonado se torna consciente das possibilidades de seu coração, pois ninguém como ele está disposto ao impossível para realizar seu amor. Assim, o apaixonar-se por Deus torna o apaixonado cada vez mais consciente de si mesmo. Aqui nasce a liberdade: a certeza de ser absolutamente amado e de amar absolutamente torna o coração seguro e livre.

Há muito o que dizer sobre o maravilhoso dom do celibato. Na comunidade Árvore da Vida o compreendemos da seguinte forma:

“A oferta de um celibatário em nosso Carisma expressa da forma mais plena e profunda o chamado de Deus para viver nossa vocação. Nele o celibatário se oferta inteiramente a Deus na expressão máxima do Amor Esponsal, dando a Jesus Esposo não só sua alma, mas também seu corpo.” (Segredo da Fenda, 172)

O evangelho de hoje recorda a história de um rei que preparou o casamento do seu filho. O Senhor prepara o casamento de seu Filho preparando suas almas esposas. Se você é uma destas almas, deixe-se preparar! Que Ele revista de vestes dignas aqueles a quem chamou.

Agradeçamos a Deus neste dia pela graça do celibato em nossa Comunidade. Supliquemos para que este dom seja fecundo e que aqueles que são e serão chamados à vida celibatária deem sempre testemunho de alegria nesta oferta.

 

“FELIZ O QUE AMA A DEUS”

Ditoso o coração enamorado

Que só em Deus coloca o pensamento;

Por Ele renuncia a todo o criado,

Nele acha glória, paz, contentamento.

Vive até de si mesmo descuidado,

Pois no seu Deus traz todo o seu intento.

E assim transpõe sereno e jubiloso

As ondas deste mar tempestuoso. (Santa Teresa de Jesus)

 

Vivendo ainda os reflexos das alegrias que Deus nos concedeu no Ano Mariano, vamos todos confiar nossos corações a Maria, Esposa das esposas. Ela sim é uma Esposa perfeita! Deixou-se amar plenamente e amou com a maior ternura! Viveu os maiores sacrifícios e seguiu amando. Passou pela cruz mas viu todas as suas esperanças realizadas! Vivendo a castidade perfeitamente, foi a mais fecunda das mulheres! De tal forma era toda de Deus que por Ele foi elevada ao Céu!

Unamos nosso coração ao de Nossa Senhora! Sendo ou não chamados à vida celibatária, temos muito a aprender com a Esposa das esposas!

Não não há Maria, alma esposa

Que não se una a ti esposa das esposas!

Não não há um olhar que

Contemple, ame o filho

Fora do teu olhar

 

Não não há, coração que se una ao dele

Sem ser um com teu coração

Teus olhos para nós

Oh, chagas de dor e amor

São janelas pelas quais

Passa a luz da verdade

 

O amor com que Deus ama o mundo

O amor com que Deus ama, ama…

Maria, Maria

Não não há Maria, alma esposa

Que não se una a ti esposa das esposas!

 

Não não há um olhar que

Contemple, ame o filho

Fora do teu olhar

Não não há, coração que se una ao dele

Sem ser um com teu coração

 

Teus olhos para nós

Oh, chagas de dor e amor

São janelas pelas quais

Passa a luz da verdade

O amor com que Deus ama o mundo

Chega a nós por teu olhar

Maria, Maria

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.