OBRAS DE MISERICÓRDIA – VESTIR OS NUS

“Viver de Amor é dar, dar sem medida,

Sem reclamar na vida recompensa.

Eu dou sem calcular, por estar convencida

De que quem ama nunca em pagamento pensa!…

Ao Coração Divino, que é só ternura em jorro,

Eu tudo já entreguei! Leve e ligeira eu corro,

Só tendo esta riqueza tão apetecida:

Viver de Amor! (Santa Teresinha do Menino Jesus)

 

“…nu e me vestistes” (Mt 25,36a)

Quando penso nesta obra de misericórdia vem à minha mente imediatamente a debilidade dos doentes que não conseguem se vestir. É verdade que visitar os doentes já é uma obra de misericórdia corporal, no entanto, visitar um corpo enfermo é bem diferente de se dispor a visita-lo. Recordo três pessoas que estiveram enfermas e que hoje já participam da vida eterna.

O primeiro chamava-se Elói. Acometido de câncer de próstata, foi hospitalizado e no hospital viveu os últimos meses de sua vida. O agravamento da doença o levou a ficar limitado ao leito. Tinha feridas extensas e bastante complicadas. O mal odor que exalava durante a troca de curativos era muito intenso. O banho era de leito e sua nudez era exposta ao profissional do plantão. Era um senhor idoso e muito lúcido. Contava histórias e gostava de música. Ela não era um número de leito, era uma pessoa. O Sr. Elói não era capaz de se vestir e às vezes se sentia envergonhado de ter que ‘dar este trabalho’. Nele, Jesus estava nu e queria ser vestido.

Minha segunda recordação é de Marlene. Uma mulher de quarenta e poucos anos que teve câncer no útero. A doença se alastrou agressivamente e ela precisou retirar também grande parte do intestino e a bexiga. Passou a usar bolsa de colostomia e de urostomia. Era uma mulher forte. A intensificação das dores que sentia fez com que a morfina fosse prescrita para ser administrada de 4 em 4 horas, mas pouco depois de ter tomado uma dose, já pedia outra. A dor intensa fazia da espera de 4 horas um intervalo muito longo… Ela não queria ‘dar trabalho’ para os enfermeiros e por isso lhes dizia que era forte para a dor e que só estava pedindo medicação porque doía demais. A piora do seu estado geral fez com que desenvolvesse anasarca que é um estado de edema (inchaço) generalizado. Ela praticamente não podia ser movida no leito. Nos seus últimos dias, já nem era vestida, era apenas coberta por um lençol. Nesta jovem senhora, cheia de força e vontade de viver, submetida pela Cruz da enfermidade, Jesus esperava ser vestido com cuidado, dignidade e misericórdia.

Minha terceira lembrança é de Eliane. Não sei porque chegou ao hospital, mas sei que era moradora de rua e que estava em coma há bastante tempo. Não tinha quem a visitasse. Devido ao seu estado de saúde, não reagia a estímulos. Também ela não podia se vestir. Aliás, certamente ela não tinha consciência se estava ou não vestida. Mas aquele corpo clamava por dignidade. Nele, Jesus queria ser vestido.

Às vezes me lembro destes amigos que creio estarem no Céu e peço a intercessão deles. Há muitos corpos desnudos neste mundo e neles Jesus clama por dignidade. Recordando destas três almas amigas, lembro-me de tantos que ainda estão neste mundo. Lembro-me de Desirrê, uma senhora que está na cama há anos, é cega, tem os membros muito deformados pela artrose e, como ela mesma diz, tem a cabeça muito boa. Seu corpinho emagrecido é muito frágil. Precisa ser vestido com cuidado. Há algum tempo ela está usando fraldas e pede para não ficar descoberta. Lembro-me de Maria Valdeni (na foto à esquerda), de Ana, Luzia Iracema, Luzia, Maria Rosa, Carmelita, Valter, Joãozinho, Sr. Elivério, Tonho… Jesus precisa ser vestido em tantos corpos frágeis!…

Não só nos doentes Jesus se manifesta necessitado de ser vestido, mas também nos pobres que não tem o que vestir. Nossos guarda roupas estão cheios de possibilidades. A maioria de nós não sabe o que é não ter o que vestir. Escolhemos as roupas que queremos vestir de acordo com a ocasião. Mas há milhares de pessoas que não tem escolha nem mesmo quando a ocasião é o frio. Há muitas pessoas que são vítimas de acidentes com fogo porque o acendem dentro de casa a fim de tentar suportar o frio, pois não há roupas. Ainda há muita pobreza em nosso país e no mundo. Se há milhares de pessoas que passam fome, quanto mais não haverá os que não tem o que vestir…

 

O Brasil possui uma grande quantidade de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. Segundo um dado oficial do Ministério de Desenvolvimento de Combate à Fome datado de 2011, existiam no Brasil até este ano cerca de 16,27 milhões de pessoas em condição de “extrema pobreza”. É preciso dizer que a pobreza não é uma condição exclusiva de uma região ou outra do nosso país, como se costuma pensar. Praticamente todas as cidades do Brasil (principalmente as periferias dos grandes centros urbanos) contam com pessoas abaixo da linha da pobreza.

Em 2017, a crise econômica no Brasil poderá levar de 2,5 a 3,6 milhões de brasileiros para abaixo da linha de pobreza até o fim do ano. A estimativa é do Banco Mundial, que divulgou estudo referente ao impacto da recessão sobre o nível de renda do brasileiro. Considera-se abaixo da linha de pobreza pessoas que vivem com menos de R$ 140 por mês. Segundo o Banco Mundial, a maior parte dos “novos pobres” virá das áreas urbanas. Estima-se que aumento da pobreza na zona rural será menor porque as taxas de vulnerabilidade já são elevadas no campo.

Segundo outra pesquisa do Banco Mundial de 2016 sobre a pobreza no mundo, os pobres (que vivem com até 1,90 dólares por dia) chegam a 766 milhões de pessoas. O maior volume de gente nessa condição fica na África subsaariana, com 388 milhões. Depois vem a parte sul da Ásia, com 256 milhões e a América Latina, com 33 milhões.  Os números sobre a pobreza nas partes central e norte da África não foram colhidos em função de problemas como a dificuldade de acessar as famílias e impossibilidade de comparar o ganho delas com o dólar. Só essa não-informação já é bastante impactante.

Entre os mais pobres do mundo estão predominantemente os que vivem no meio rural (80%), os jovens (44% tem até 14 anos), os de baixa escolaridade (39% não têm escolaridade formal), a maioria empregados no setor agrícola (64%), e vivendo em famílias que tem mais de dois filhos.  Do total de 766 milhões de pessoas nessas condições de pobreza, 385 milhões são crianças e mais de um quinto deles são menores de cinco anos.  A África subsaariana tem o maior número de crianças nessa condição, quase 50%. Em segundo lugar vem o sul da Ásia com 36% e a Índia, com 30%.

Ouçamos o clamor de Jesus. Perto ou longe, Ele clama por dignidade.

 

“Nunca te preocupes com números. Ajuda uma pessoa de cada vez e começa sempre por aquela que estiver mais perto de ti.” (Madre Teresa de Calcutá)

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.