OBRAS DE MISERICÓRDIA – DAR BOM CONSELHO

“Ó Jesus, sei, o amor só se paga com o amor; por isso, procurei, achei o meio de aliviar meu coração retribuindo Amor com Amor. “Granjeai amigos com a vil riqueza, para que quando esta vier a faltar eles vos recebam nas tendas eternas”. Eis, Senhor, o conselho que dás a teus discípulos depois de teres dito a eles que “os filhos deste mundo são mais atilados que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes”.
“Segue o conselho de Jesus: “E a quem quiser citar-te em juízo para te tirar a túnica, deixa-lhe também o manto…” Deixar o manto, parece-me, é renunciar aos últimos direitos, é considerar-se como a serva, a escrava das outras. Quando se abandonou o manto, é mais fácil andar, correr, por isso Jesus acrescenta: “E, se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas”.
“Por isso, a fim de não perder meu tempo, quero ser amável com todas (e particularmente com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e responder ao conselho que me dá no Evangelho, mais ou menos nos seguintes termos: “Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não chames os teus amigos, nem os teus irmãos, nem os teus parentes, nem os ricos vizinhos; de outro modo eles também convidar-te-iam e terias uma retribuição.” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

 O ouro e a prata são bases sólidas. Um bom conselho, porém, supera um e outra. (Eclo 40, 25)

 Santa Teresinha do Menino Jesus é Doutora da Igreja e nos apresenta nas citações acima um dos segredos de seu caminho de santidade: acolher os conselhos de Jesus. Ele, Sabedoria Eterna, é a fonte de todo bom conselho. Dar bom conselho é a segunda obra de misericórdia espiritual, mas é também um dom do Espírito Santo. Em nossos dias, vemos o individualismo crescer cada vez mais. Em um mundo tão globalizado, as pessoas se defendem umas das outras, se protegem da convivência e se encapsulam em um universo egoísta em que os outros não podem entrar. Um passo na direção do outro pode ser visto como intromissão e desrespeito. Vive-se cercado de pessoas e faz-se com frequência a experiência da solidão. A depressão aparece como doença do século. O suicídio é um caso grave de saúde pública. Cerca de 32 pessoas morrem por dia no Brasil, no mundo, a cada 40 segundos uma pessoa pratica suicídio. Dentre as principais causas estão a solidão, a depressão, problemas conjugais e de relacionamento, dificuldades financeiras ou profissionais, problemas na adolescência e início da vida adulta, luto ou perdas afetivas, uso de drogas e timidez. Na década de 60, foi fundada uma Associação chamada Centro de Valorização da Vida que presta serviço voluntário de apoio emocional e prevenção do suicídio. Hoje são mais de 70 unidades no país. O serviço prestado voluntariamente pela associação é conversar. Isso mesmo. Quem deseja conversar pode ligar sob total sigilo. Os voluntários estão à disposição para ouvir, oferecer acolhida, amizade e dar bom conselho. Acredita-se de que de cada 10 suicídios 9 poderiam ser evitados. Mas para quem tem fé, todos os suicídios poderiam ser evitados.
Esta obra de misericórdia é capaz de salvar as almas. Salvar o que está perdido. O pré-requisito é a disposição em ouvir, depois a disposição de deixa-se usar por Deus e, em seguida dar de graça aquilo que de graça recebemos: a palavra acertada capaz de curar o coração ferido, dar ânimo à alma abatida, despertar o desejo de conversão no coração pecador. Dar bom conselho é oferecer ajuda à pessoa confusa, indecisa, duvidosa, a superar o tormento e a aflição que lhe provocam as suas dúvidas. Nos diz o Papa Francisco: “Expressar misericórdia pelos inseguros equivale a aliviar a dor e o sofrimento que provêm do medo e da angústia que são consequências da dúvida. É um ato de verdadeiro amor pelo qual se ampara e apoia a pessoa na fragilidade da sua incerteza e hesitação”. Que maravilhosa recordação! É preciso expressar misericórdia para com os inseguros. Os sofrimentos do corpo nos parecem mais dolorosos porque são mais aparentes, visíveis. Mas quantos tormentos se vive na alma! Não podemos negar aos pobres sofredores da alma o alívio que um bom conselho pode causar. Não devemos ter medo de tocar as feridas da alma. Não podemos achar que nada temos para ofertar, que não estamos aptos, pois temos o Espírito Santo. Ele age em nós e pode dar aos irmãos a vida de que precisam. Assim afirma o livro dos provérbio: “Água profunda é o conselho no íntimo do homem; o homem inteligente sabe haurir dela.” (Pr 20, 5). O bom conselho habita dentro de ti. É preciso oferta-lo generosamente.
Abramos neste dia nosso coração ao Espírito Santo e peçamos o dom do conselho. Jesus está ferido no coração e na alma dos aflitos, dos incertos, dos duvidosos, dos que fazem escolhas más, dos que tem sede de verdade e não conseguem encontrar… Nosso amado Jesus espera receber de nossos lábios e corações um bom conselho.

“Nossa Senhora me mostra não estar zangada comigo, nunca deixa de me proteger quando a invoco. Se me vem uma inquietação, um problema, logo me dirijo a ela e sempre, como a mais terna das Mães, ela toma conta dos meus interesses… Quantas vezes, ao falar às noviças, invoco-a e sinto os favores da sua maternal proteção!… Freqüentemente, as noviças me dizem: “Mas tendes resposta para tudo; desta vez, pensava embaraçar-vos… aonde é que ides buscar o que dizeis?” Há umas tão ingênuas que pensam que leio nas almas delas, só porque me aconteceu preveni-Ias dizendo o que pensavam. Uma noite, uma das minhas companheiras”‘ resolve ocultar-me uma pena que a faz sofrer muito. Encontro-a pela manhã, ela me fala com semblante sorridente e eu, sem responder ao que ela me diz, digo-lhe num tom convicto: Estais sofrendo. Se tivesse feito a lua cair aos pés dela, creio que não teria olhado para mim com espanto maior. Seu pasmo foi tanto que me contagiou e, por um instante, fui tomada de um pavor sobrenatural. Tinha certeza de não ter o dom de ler nas almas e ter acertado assim, em cheio, me espantou. Sentia que Deus estava muito perto, que sem perceber dissera, como uma criança, palavras que não vinham de mim, mas Dele.” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.