OBRAS DE MISERICÓRDIA – CUIDAR DA CASA COMUM

Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da margarida… Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a natureza perderia sua pompa primaveril e os campos já não seriam salpicados de florzinhas… (Santa Teresinha do Menino Jesus)

“Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus.”  (Rm 8,19)

Em 2015, ano do lançamento da Encíclica Laudato Si, foi instituído pelo Papa Francisco o Dia Mundial de Oração e Cuidado da Criação, celebrado em 1º de setembro. No ano seguinte, na mensagem para a celebração deste dia, no contexto do Ano da Misericórdia, Francisco exortou a Igreja a usar de misericórdia para com a nossa casa comum. Este é o título da mensagem do Papa para o dia 1º de setembro de 2016:

“Usemos de misericórdia para com a nossa casa comum”

Meditemos sobre alguns trechos desta valiosa mensagem:

 

Logo na introdução o Papa recorda o objetivo desta celebração: dar «a cada fiel e às comunidades a preciosa oportunidade para renovar a adesão pessoal à sua vocação de guardiões da criação, elevando a Deus o agradecimento pela obra maravilhosa que Ele confiou ao nosso cuidado, invocando a sua ajuda para a proteção da criação e a sua misericórdia pelos pecados cometidos contra o mundo em que vivemos».

 

Em seguida, o Papa desenvolve sua mensagem a partir de seis subtítulos:

  1. A terra clama…
  2. …porque pecamos
  3. Exame de consciência e arrependimento
  4. Mudar de rumo
  5. Uma nova obra de misericórdia

O último subtítulo é um convite à oração.

 

Como nosso propósito é meditar sobre as obras de misericórdia em sua dimensão missionária, tomaremos como base esta mensagem através da qual o Papa Francisco instituiu a oitava obra de misericórdia corporal e espiritual. Como o Papa deixa claro, a casa comum é a casa do homem, obra de Deus que tudo criou por amor. Ter misericórdia para com esta casa é um gesto de gratidão que dá glória a Deus e um gesto de compaixão para com o homem que nela habita.

 

No primeiro subtítulo nos convida fortemente à responsabilidade:

“Deus deu-nos de presente um exuberante jardim, mas estamos a transformá-lo numa poluída vastidão de «ruínas, desertos e lixo». Não podemos render-nos ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade e a destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas. «Por nossa causa, milhares de espécies já não darão glória a Deus com a sua existência, nem poderão comunicar-nos a sua própria mensagem. Não temos direito de o fazer».

“Como salienta a ecologia integral, os seres humanos estão profundamente ligados entre si e à criação na sua totalidade. Quando maltratamos a natureza, maltratamos também os seres humanos. Ao mesmo tempo, cada criatura tem o seu próprio valor intrínseco que deve ser respeitado. Escutemos ‘tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres’ e procuremos atentamente ver como se pode garantir uma resposta adequada”, destaca o Pontífice.

 

Conversão ecológica

Exorta o Santo Padre: “aprendamos a procurar a misericórdia de Deus para os pecados contra a criação que até agora não soubemos reconhecer nem confessar; e comprometamo-nos a dar passos concretos no caminho da conversão ecológica”. A consciência ecológica, entretanto, toma forma somente após algumas reflexões, explica o Papa: “Depois de um sério exame de consciência e habitados por tal arrependimento, podemos confessar os nossos pecados contra o Criador, contra a criação, contra os nossos irmãos e irmãs”.

 

Mudar de rumo

“O exame de consciência, o arrependimento e a confissão ao Pai, rico em misericórdia, levam-nos a um propósito firme de mudar de vida”, destaca Francisco. O Pontífice recorda algumas coisas práticas apresentadas por ele na Laudato Si e que cada um de nós pode fazer para respeitar a criação: “Utilizar com critérios o plástico e o papel, não desperdiçar água, comida e eletricidade, diferenciar o lixo, tratar com zelo os outros seres vivos, usar os transportes públicos e partilhar o mesmo veículo com várias pessoas”. A estas pequenas ações de grande importância somam-se os compromissos em nível global, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e o Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas. “Os governos têm o dever de respeitar os compromissos que assumiram, enquanto as empresas devem responsavelmente cumprir a sua parte, e cabe aos cidadãos exigir que isto aconteça e também se aponte para objetivos cada vez mais ambiciosos”, exorta o Papa.

 

Nova obra de misericórdia

Ao concluir a mensagem, sob uma ótica holística da vida humana que na sua totalidade inclui o cuidado da casa comum, Francisco diz:

«Nada une mais a Deus do que um ato de misericórdia (…), quer se trate da misericórdia com que o Senhor nos perdoa os nossos pecados, quer se trate da graça que nos dá para praticarmos as obras de misericórdia em seu nome». (…)

A vida cristã inclui a prática das tradicionais obras de misericórdia corporais e espirituais. «Estamos habituados a pensar nas obras de misericórdia uma a uma e enquanto ligadas a uma obra: hospitais para os doentes, sopa dos pobres para os famintos, abrigos para os que vivem pela estrada, escolas para quem precisa de instrução, o confessionário e a direção espiritual para quem necessita de conselho e perdão… Mas, se as olharmos em conjunto, a mensagem que daí resulta é que a misericórdia tem por objeto a própria vida humana na sua totalidade».

Obviamente, a «vida humana na sua totalidade» inclui o cuidado da casa comum. Por isso, tomo a liberdade de propor um complemento aos dois elencos de sete obras de misericórdia, acrescentando a cada um o cuidado da casa comum.

Como obra de misericórdia espiritual, o cuidado da casa comum requer «a grata contemplação do mundo», que «nos permite descobrir qualquer ensinamento que Deus nos quer transmitir através de cada coisa». Como obra de misericórdia corporal, o cuidado da casa comum requer aqueles «simples gestos quotidianos, pelos quais quebramos a lógica da violência, da exploração, do egoísmo» e se manifesta o amor «em todas as ações que procuram construir um mundo melhor».

 

Caros irmãos, precisamos tomar a peito o cuidado para com a criação. Em nossa evangelização, em nosso testemunho devemos expressar um estilo de vida que proclame a misericórdia com nossa casa comum. Como cada obra de misericórdia, também esta rompe o egoísmo dentro de nós e nos lança para o outro.

Sejamos misericordiosos como nosso Pai, saiamos a cada dia de nós mesmos movidos por um forte amor a Jesus e lancemo-nos sob o impulso do Espírito para compor a obra missionária que é de toda Igreja! Sigamos os passos de Jesus, missionário do Pai, sigamos os passos de Teresinha, Faustina, Margarida Maria, Teresa de Calcutá, Francisco… Sejamos verdadeiramente missionários! Amemos muito! Sejamos felizes!

 

“O mundo que Deus nos deu é mais do que suficiente, segundo os cientistas e pesquisadores,   para todos; existe riqueza mais que de sobra para todos. É só uma questão de reparti-la bem, sem egoísmo.”

 “Quando vejo o desperdício, sinto raiva dentro de mim. Eu não aprovo eu mesma sentir raiva. Mas é algo que não se pode evitar de se sentir após vermos a Etiópia.”

“A raiz de todos os males? O egoísmo.” (Madre Teresa De Calcutá)

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.

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