OBRAS DE MISERICÓRDIA – SEPULTAR OS MORTOS

Um mês depois da partida da nossa santa Madre, começou uma epidemia de gripe na comunidade. Só eu e mais duas irmãs ficamos de pé. Naquela época, eu estava sozinha para cuidar da sacristia, a primeira encarregada estava gravemente doente. Eu devia preparar os enterros, abrir as grades do coro durante as missas etc. Naquele momento, Deus me deu muitas graças de força; pergunto-me agora como pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo lugar, as mais doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se arrastar. Logo que uma irmã soltava o último suspiro, éramos obrigadas a deixá-la sozinha. Numa manhã, ao me levantar, tive o pressentimento de que Irmã Madalena estava morta, o dormitório estava escuro, ninguém saía das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irmã Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada numa enxerga, não tive o menor medo. Vendo que ela não tinha vela, fui buscar uma e a coroa de rosas.

Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a enfermeira; é impossível imaginar o triste estado da comunidade naquele momento, só as que estavam de pé podem ter idéia, mas no meio daquele abandono sentia que Deus velava por nós. As moribundas passavam sem esforço para a eternidade. Logo depois da morte, uma expressão de alegria e de paz espalhava-se em seus traços, parecia um sono repousante. De fato o era, pois após o cenário deste mundo que passa acordarão para usufruir eternamente das delícias reservadas aos eleitos… (Santa Teresinha do Menino Jesus)

“quando via o cadáver de algum de meus compatriotas jogado para fora das muralhas de Nínive, sepultava-o”. (Tb 1,20)

No livro de Tobias temos um valioso testemunho da prática da obra de misericórdia de sepultar os defuntos. A história se passa no século VIII a.C. Os israelitas haviam sido deportados para a Assíria. Longe da Terra Prometida, Tobit mantinha-se fiel aos preceitos do Senhor sobretudo pela prática das obras de misericórdia. A prática de sepultar os mortos era condenada pelo rei assírio, mas Tobit não deixava de fazê-lo apesar do risco de represália. O livro de Tobias relata a ocasião que o rei Senaquerib mandou matar muitos israelitas. Tobit “retirava os corpos para dar-lhes sepultura”. Procurando os corpos sem encontrá-los, o rei soube que Tobit os sepultava clandestinamente e, por isso decidiu mata-lo. Tobit fugiu com medo e todos os seus bens foram confiscados. Após a morte do rei, Tobit voltou para Nínive, mas não deixou de se dedicar a esta obra de misericórdia.

Uma outra cena muito bonita e conhecida é a que culmina na sua cegueira. A viagem de Tobias, a companhia de Rafael, o peixe, o encontro com Sara, o casamento, a vitória sobre Asmodeu e a cura de Tobit são tão marcantes que às vezes nos esquecemos da figura do grande homem que é Tobit e dos fatos que precederam a viagem de Tobias: na Festa de Pentecostes, Tobit voltara à sua casa e foi-lhe preparado um excelente almoço. Estando à mesa, pediu a seu filho que procurasse dentre os israelitas algum pobre de coração fiel para comer com eles. Ao sair, Tobias encontrou um homem que havia sido assassinado e lançado na praça do mercado da cidade. Tobit deixou o prato intacto e foi buscar o corpo levando-o para sua casa esperando, segundo sua cultura, o pôr do sol para enterrá-lo. Tomou então a refeição com tristeza e entre lágrimas. Após o pôr do sol, cavou uma fossa e o sepultou. Os vizinhos de Tobit caçoavam dele, pois sabiam que ele havia fugido uma vez por esta causa e agora estava de novo a sepultar os mortos.

Tobit é para nós um ícone da compaixão para com os irmãos falecidos. Seus gestos são um sinal vivo do respeito à memória do falecido e da dignidade do corpo humano.

O corpo, como ensina João Paulo II, é o ‘sacramento da pessoa’: é a expressão da identidade profunda de filho de Deus, é lugar da habitação divina, meio para expressar a presença de Deus que nele habita e para conduzir o homem à amizade da Trindade, é o ‘lugar teológico’ da realização da vontade de Deus. No corpo estão também as marcas de uma história: amor recebido, amor ofertado, trabalhos, sofrimentos, conquistas e fracassos.

Em nossos dias vemos por todos os lados ofensas à dignidade do corpo humano. Os corpinhos dos fetos são mutilados nos ventres de suas mães clandestinamente ou em clínicas especializadas. Corpos são mutilados a partir de ideologias pérfidas que insistem em poder ‘neutralizar’ ou alterar sua identidade. Quantos corpos forçados a duras penas a se transformarem naquilo que não são! E o que dizer da violência ‘promovida’ pelo tráfico humano e de drogas? Temos conhecimento de verdadeiras barbaridades! Para não dizer dos milhares de migrantes mortos em busca de refúgio e nos próprios campos de refugiados, dos mortos pela violência das guerras, dos ataques terroristas… A morte é uma realidade humana que nos coloca diante na nossa finitude. Mas o fato de convivermos com a morte jamais pode nos levar a desprezar a dignidade do corpo de um falecido. Muito pelo contrário. Devemos ter em mente a cena da morte de Jesus no evangelho: José de Arimatéia pede o corpo de Jesus a Pilatos, envolve-o em um lençol limpo e deposita-o em um túmulo novo. Maria Madalena e outras mulheres, não tendo sido possível preparar do corpo de Jesus com o zelo devido, chegaram ao sepulcro domingo de madrugada na esperança de ainda lhe prestar uma homenagem respeitosa.

Devemos sepultar nossos mortos com toda dignidade. Se já o fazemos, devemos ao menos estar atentos para favorecer este digno respeito aos que são menos favorecidos. Um funeral tem custos altos e há muitas famílias que tem dificuldades financeiras para prepara-lo. Sem contar aqueles que não têm família. Eu mesma fui testemunha do sepultamento de um idoso que não tinha família em que, tendo o caixão chegado ao cemitério, não havia quem o depositasse na cova. Foi o motorista da funerária e a coordenadora da instituição na época quem desceram a urna de qualquer maneira. Presenciei mais de uma vez na mesma instituição uma situação em que um idoso faleceu e o corpo precisou ser mantido por longas horas na instituição porque não havia os documentos necessários para que a funerária pudesse buscá-lo. Estas são situações muito próximas a nós e que clamam por dignidade.

Vale a pena ressaltar o abominável costume que o advento dos smartphones possibilitou de filmar corpos mortos e disseminar fotos e vídeos. Basta acontecer um acidente para que centenas de pessoas recebam em seus whatsapps quase em tempo real fotos e vídeos que desrespeitam profundamente a dignidade daquelas pessoas e de suas famílias. Os mortos devem ser sepultados dignamente e não expostos à curiosidade do povo. Se não devemos filmar ou fotografar uma cena dessas, tampouco devemos nos prestar a ver uma imagem destas. Rezar sim e com muita compaixão, mas compactuar com uma insanidade destas, jamais.

Há ainda muitas realidades dolorosas pelas quais devemos rezar e, quem sabe um dia, o Senhor nos dará a oportunidade de tocar. Madre Teresa muitas vezes tirava das ruas pessoas muito doentes apenas para que tivessem a possiblidade de morrer com dignidade.

Esta obra de misericórdia se estende ao consolo das pessoas enlutadas. Diante da dor da morte, podemos unir a esta obra de misericórdia uma outra sobre a qual já meditamos: consolar os tristes. Devemos ir àqueles que perderam pessoas queridas para ser instrumento do consolo de Deus, ser sinal de esperança, recordar a certeza da vida eterna.

 

compartilhar

Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *