{"id":12193,"date":"2017-10-27T19:54:27","date_gmt":"2017-10-27T21:54:27","guid":{"rendered":"http:\/\/comunidadearvoredavida.com\/site\/?p=12193"},"modified":"2017-10-27T19:55:22","modified_gmt":"2017-10-27T21:55:22","slug":"sepultar-os-mortos","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/comunidadearvoredavida.com.br\/po\/sepultar-os-mortos\/","title":{"rendered":"OBRAS DE MISERIC\u00d3RDIA &#8211; SEPULTAR OS MORTOS"},"content":{"rendered":"<p>Um m\u00eas depois da partida da nossa santa Madre, come\u00e7ou uma epidemia de gripe na comunidade. S\u00f3 eu e mais duas irm\u00e3s ficamos de p\u00e9. Naquela \u00e9poca, eu estava sozinha para cuidar da sacristia, a primeira encarregada estava gravemente doente. Eu devia preparar os enterros, abrir as grades do coro durante as missas etc. Naquele momento, Deus me deu muitas gra\u00e7as de for\u00e7a; pergunto-me agora como pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo lugar, as mais doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se arrastar. Logo que uma irm\u00e3 soltava o \u00faltimo suspiro, \u00e9ramos obrigadas a deix\u00e1-la sozinha. Numa manh\u00e3, ao me levantar, tive o pressentimento de que Irm\u00e3 Madalena estava morta, o dormit\u00f3rio estava escuro, ningu\u00e9m sa\u00eda das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irm\u00e3 Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada numa enxerga, n\u00e3o tive o menor medo. Vendo que ela n\u00e3o tinha vela, fui buscar uma e a coroa de rosas.<\/p>\n<p>Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a enfermeira; \u00e9 imposs\u00edvel imaginar o triste estado da comunidade naquele momento, s\u00f3 as que estavam de p\u00e9 podem ter id\u00e9ia, mas no meio daquele abandono sentia que Deus velava por n\u00f3s. As moribundas passavam sem esfor\u00e7o para a eternidade. Logo depois da morte, uma express\u00e3o de alegria e de paz espalhava-se em seus tra\u00e7os, parecia um sono repousante. De fato o era, pois ap\u00f3s o cen\u00e1rio deste mundo que passa acordar\u00e3o para usufruir eternamente das del\u00edcias reservadas aos eleitos&#8230; (Santa Teresinha do Menino Jesus)<\/p>\n<p>\u201cquando via o cad\u00e1ver de algum de meus compatriotas jogado para fora das muralhas de N\u00ednive, sepultava-o\u201d. (<a href=\"https:\/\/www.bibliacatolica.com.br\/biblia-ave-maria\/tobias\/?utm_source=bibliacatolica&amp;utm_medium=share_text&amp;utm_campaign=copy_and_paste\">Tb 1<\/a>,20)<\/p>\n<p>No livro de Tobias temos um valioso testemunho da pr\u00e1tica da obra de miseric\u00f3rdia de sepultar os defuntos. A hist\u00f3ria se passa no s\u00e9culo VIII a.C. Os israelitas haviam sido deportados para a Ass\u00edria. Longe da Terra Prometida, Tobit mantinha-se fiel aos preceitos do Senhor sobretudo pela pr\u00e1tica das obras de miseric\u00f3rdia. A pr\u00e1tica de sepultar os mortos era condenada pelo rei ass\u00edrio, mas Tobit n\u00e3o deixava de faz\u00ea-lo apesar do risco de repres\u00e1lia. O livro de Tobias relata a ocasi\u00e3o que o rei Senaquerib mandou matar muitos israelitas. Tobit \u201cretirava os corpos para dar-lhes sepultura\u201d. Procurando os corpos sem encontr\u00e1-los, o rei soube que Tobit os sepultava clandestinamente e, por isso decidiu mata-lo. Tobit fugiu com medo e todos os seus bens foram confiscados. Ap\u00f3s a morte do rei, Tobit voltou para N\u00ednive, mas n\u00e3o deixou de se dedicar a esta obra de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Uma outra cena muito bonita e conhecida \u00e9 a que culmina na sua cegueira. A viagem de Tobias, a companhia de Rafael, o peixe, o encontro com Sara, o casamento, a vit\u00f3ria sobre Asmodeu e a cura de Tobit s\u00e3o t\u00e3o marcantes que \u00e0s vezes nos esquecemos da figura do grande homem que \u00e9 Tobit e dos fatos que precederam a viagem de Tobias: na Festa de Pentecostes, Tobit voltara \u00e0 sua casa e foi-lhe preparado um excelente almo\u00e7o. Estando \u00e0 mesa, pediu a seu filho que procurasse dentre os israelitas algum pobre de cora\u00e7\u00e3o fiel para comer com eles. Ao sair, Tobias encontrou um homem que havia sido assassinado e lan\u00e7ado na pra\u00e7a do mercado da cidade. Tobit deixou o prato intacto e foi buscar o corpo levando-o para sua casa esperando, segundo sua cultura, o p\u00f4r do sol para enterr\u00e1-lo. Tomou ent\u00e3o a refei\u00e7\u00e3o com tristeza e entre l\u00e1grimas. Ap\u00f3s o p\u00f4r do sol, cavou uma fossa e o sepultou. Os vizinhos de Tobit ca\u00e7oavam dele, pois sabiam que ele havia fugido uma vez por esta causa e agora estava de novo a sepultar os mortos.<\/p>\n<p>Tobit \u00e9 para n\u00f3s um \u00edcone da compaix\u00e3o para com os irm\u00e3os falecidos. Seus gestos s\u00e3o um sinal vivo do respeito \u00e0 mem\u00f3ria do falecido e da dignidade do corpo humano.<\/p>\n<p>O corpo, como ensina Jo\u00e3o Paulo II, \u00e9 o \u2018sacramento da pessoa\u2019: \u00e9 a express\u00e3o da identidade profunda de filho de Deus, \u00e9 lugar da habita\u00e7\u00e3o divina, meio para expressar a presen\u00e7a de Deus que nele habita e para conduzir o homem \u00e0 amizade da Trindade, \u00e9 o \u2018lugar teol\u00f3gico\u2019 da realiza\u00e7\u00e3o da vontade de Deus. No corpo est\u00e3o tamb\u00e9m as marcas de uma hist\u00f3ria: amor recebido, amor ofertado, trabalhos, sofrimentos, conquistas e fracassos.<\/p>\n<p>Em nossos dias vemos por todos os lados ofensas \u00e0 dignidade do corpo humano. Os corpinhos dos fetos s\u00e3o mutilados nos ventres de suas m\u00e3es clandestinamente ou em cl\u00ednicas especializadas. Corpos s\u00e3o mutilados a partir de ideologias p\u00e9rfidas que insistem em poder \u2018neutralizar\u2019 ou alterar sua identidade. Quantos corpos for\u00e7ados a duras penas a se transformarem naquilo que n\u00e3o s\u00e3o! E o que dizer da viol\u00eancia \u2018promovida\u2019 pelo tr\u00e1fico humano e de drogas? Temos conhecimento de verdadeiras barbaridades! Para n\u00e3o dizer dos milhares de migrantes mortos em busca de ref\u00fagio e nos pr\u00f3prios campos de refugiados, dos mortos pela viol\u00eancia das guerras, dos ataques terroristas&#8230; A morte \u00e9 uma realidade humana que nos coloca diante na nossa finitude. Mas o fato de convivermos com a morte jamais pode nos levar a desprezar a dignidade do corpo de um falecido. Muito pelo contr\u00e1rio. Devemos ter em mente a cena da morte de Jesus no evangelho: Jos\u00e9 de Arimat\u00e9ia pede o corpo de Jesus a Pilatos, envolve-o em um len\u00e7ol limpo e deposita-o em um t\u00famulo novo. Maria Madalena e outras mulheres, n\u00e3o tendo sido poss\u00edvel preparar do corpo de Jesus com o zelo devido, chegaram ao sepulcro domingo de madrugada na esperan\u00e7a de ainda lhe prestar uma homenagem respeitosa.<\/p>\n<p>Devemos sepultar nossos mortos com toda dignidade. Se j\u00e1 o fazemos, devemos ao menos estar atentos para favorecer este digno respeito aos que s\u00e3o menos favorecidos. Um funeral tem custos altos e h\u00e1 muitas fam\u00edlias que tem dificuldades financeiras para prepara-lo. Sem contar aqueles que n\u00e3o t\u00eam fam\u00edlia. Eu mesma fui testemunha do sepultamento de um idoso que n\u00e3o tinha fam\u00edlia em que, tendo o caix\u00e3o chegado ao cemit\u00e9rio, n\u00e3o havia quem o depositasse na cova. Foi o motorista da funer\u00e1ria e a coordenadora da institui\u00e7\u00e3o na \u00e9poca quem desceram a urna de qualquer maneira. Presenciei mais de uma vez na mesma institui\u00e7\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o em que um idoso faleceu e o corpo precisou ser mantido por longas horas na institui\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o havia os documentos necess\u00e1rios para que a funer\u00e1ria pudesse busc\u00e1-lo. Estas s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3ximas a n\u00f3s e que clamam por dignidade.<\/p>\n<p>Vale a pena ressaltar o abomin\u00e1vel costume que o advento dos smartphones possibilitou de filmar corpos mortos e disseminar fotos e v\u00eddeos. Basta acontecer um acidente para que centenas de pessoas recebam em seus whatsapps quase em tempo real fotos e v\u00eddeos que desrespeitam profundamente a dignidade daquelas pessoas e de suas fam\u00edlias. Os mortos devem ser sepultados dignamente e n\u00e3o expostos \u00e0 curiosidade do povo. Se n\u00e3o devemos filmar ou fotografar uma cena dessas, tampouco devemos nos prestar a ver uma imagem destas. Rezar sim e com muita compaix\u00e3o, mas compactuar com uma insanidade destas, jamais.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda muitas realidades dolorosas pelas quais devemos rezar e, quem sabe um dia, o Senhor nos dar\u00e1 a oportunidade de tocar. Madre Teresa muitas vezes tirava das ruas pessoas muito doentes apenas para que tivessem a possiblidade de morrer com dignidade.<\/p>\n<p>Esta obra de miseric\u00f3rdia se estende ao consolo das pessoas enlutadas. Diante da dor da morte, podemos unir a esta obra de miseric\u00f3rdia uma outra sobre a qual j\u00e1 meditamos: consolar os tristes. Devemos ir \u00e0queles que perderam pessoas queridas para ser instrumento do consolo de Deus, ser sinal de esperan\u00e7a, recordar a certeza da vida eterna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um m\u00eas depois da partida da nossa santa Madre, come\u00e7ou uma epidemia de gripe na comunidade. S\u00f3 eu e mais duas irm\u00e3s ficamos de p\u00e9. 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