OBRAS DE MISERICÓRDIA – CORRIGIR OS QUE ERRAM

“Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração, valendo-me da breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto, certo dia, ou melhor, certa noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta que bem merece referência. Deu-me grande motivo de humilhar-me, e a respeito dela creio ter tido contrição perfeita. Sendo muito pequena para frequentar o mês de Maria, ficava com Vitória e fazia com ela minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de Maria, adornado de acordo com minha capacidade. Tudo era tão miudinho: castiçais e vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam tudo perfeitamente. Às vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me uns pedacinhos de torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo prestes para nos pormos em oração, digo-lhe: “Vitória, queres começar com o “Lembrai-vos”, que vou acender”. Ela fez menção de começar, mas não disse palavra, e olhava-me rindo. Eu que via meus preciosos fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe fizesse a oração, e ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a dizer-lhe, com voz gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual brandura batia o pé com toda a minha força… A pobre da Vitória já não tinha vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as torcidas que me havia trazido… Depois de verter lágrimas coléricas, derramei lágrimas de sincero arrependimento, com o firme propósito de não tornar a fazê-lo!…” (Santa Teresinha do Menino Jesus)

 

“Eu repreendo e castigo aqueles que amo. ”

Apocalipse 3,19

 

A palavra “erro” vem do latim ERRARE, “perder-se, andar sem destino, cometer uma inadequação”, de uma base Indo-Europeia ERS- “andar sem destino”. Essa etmologia da palavra “erro” lança algumas luzes sobre nossa meditação a respeito da obra de misericórdia ‘corrigir os que erram’.

Em primeiro lugar, fundamentados na Palavra de Deus, devemos entender que a correção é um gesto de amor. Corrige-se porque se ama. Não há outra razão para a correção. Infelizmente, nos tempos de hoje, desvinculamos correção de amor. Entender a correção como fundamentada no amor é matéria de conversão para nosso tempo, é ocasião de tomar o caminho correto quanto ao erro.

Quando vemos um erro, não estamos vendo necessariamente um fruto do pecado. O erro é parte da experiência humana. Ele é um grande amigo que participa de nossa vida para nos fazer crescer. Dou um exemplo: quando Teresinha tinha apenas seis anos, Thomas Edison inventou a lâmpada elétrica. Um dia, um dos auxiliares desse grande inventor, desanimado após 700 tentativas frustradas de inventar a lâmpada, sugeriu que Edison desistisse de novas tentativas, pois eles não haviam dado um só passo para o sucesso. Edison respondeu: “O quê? Não avançamos um só passo? Avançamos 700 passos rumo ao êxito final! Sabemos de 700 coisas que não deram certo! Estamos para além de 700 ilusões que mantínhamos anos atrás e que hoje não nos iludem mais. E a isso você chama perda de tempo?”. E, sem se importar com novos erros, Edison continuou tentando com perseverança. Após 1200 tentativas, inventou a lâmpada.

Como dizia, o erro faz parte da condição humana e é um verdadeiro amigo para aqueles que o escutam. Quando Edison escutou seu primeiro erro ao tentar inventar a lâmpada, fez diferente da segunda vez. Seu primeiro erro o levou a melhorar no passo seguinte. E assim ele foi melhorando em cada erro, até alcançar o acerto. Hoje, a lâmpada que ele inventou está saindo do mercado consumidor, mas trouxe alegria a muita gente por quase 140 anos! Benditos 1199 erros!

Há uma composição de Raul Seixas – e tem gente que diz que nada dele vem de Deus! – que é um clássico da música brasileira e pode nos servir de inspiração para essa reflexão. Ela diz assim:

Veja!
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez!

 

Beba! Pois a água viva ainda tá na fonte
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou!

 

Tente!
Levante sua mão sedenta e recomece a andar
Não pense que a cabeça aguenta se você parar
Não! Não! Não! Não! Não! Não!

Há uma voz que canta, uma voz que dança, uma voz que gira
Bailando no ar


Queira!
Basta ser sincero e desejar profundo
Você será capaz de sacudir o mundo
Vai! Tente outra vez!

 

Tente!
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez!

 

São versos muito inspiradores e com valores cristãos, mesmo não sendo essa a intenção do autor. Quando se erra, nada está perdido. Tente outra vez. Recomece a andar, você tem dois pés para cruzar a ponte. Tente outra vez. Não diga que a vitória está perdida. Tente outra vez. Afinal, errar é próprio da condição humana e parte de nosso processo de crescimento.

Como uma criança aprende a andar a não ser caindo? E pedalar? Alguém já pegou uma bicicleta e saiu por aí dando voltas sem cair uma só vez ou apoiar os pés no chão? E a escrever? Foi só pegar o lápis e sair redigindo a primeira redação, certo? E como aprendemos as primeiras operações matemáticas? Aliás, na Pedagogia, o erro tem um papel fundamental, pois ele é um elemento extremamente positivo para o desenvolvimento do processo de aprendizado.

Se começarmos a ver o erro dessa maneira, vamos experimentar uma verdadeira conversão diante dele, conversão essencial para darmos o passo seguinte: a correção dos nossos erros e dos erros dos outros.

É senso comum que quem é duro consigo mesmo é muito duro com os outros. Portanto, se compreendermos melhor os nossos erros teremos mais condições de compreendermos os erros dos outros e fazer a correção devida, no amor. Para isso já temos algumas pistas: ver o erro como nosso amigo e fundamentar a correção no amor. Em seguida, quando se trata de corrigir a outrem, devemos observar antes de agir. Esse é um princípio fundamental.

Qual a razão de observarmos antes de agir? Permitir que o outro consiga enxergar o próprio erro. Se ele enxergar o próprio erro terá muito mais chance de fazer diferente, porque a descoberta do erro veio de dentro e não de fora. Agir corrigindo antes de observar é amputar o processo de descoberta. Falo aqui da maioria das situações e não de situações graves. Por exemplo: em uma questão de vida ou morte não podemos esperar uma pessoa puxar o gatilho ou pular de um prédio para ver se errou. Devemos agir antes de observar. Nas demais situações, porém, observar antes de agir.

Quando ocorre da pessoa não perceber que errou, então, devemos corrigir. Aqui vem como muito importante o modo de corrigir. Lembramos: no amor. Correção sem amor é correção que visa apenas o erro e não a pessoa. Era isso que os fariseus faziam e que Jesus tanto criticava. Quem corrige no amor visa a pessoa. Daí o modo de corrigir ser muito mais importante do que a correção em si. No trecho acima da vida de Teresinha, a santa criança verteu muitas lágrimas após a correção. Teria sido corrigida de modo muito duro? Pelo contrário. Vitória, sua ama, a corrigiu sem palavras, apenas mostrando com as torcidas que Teresinha estava errada. A criança reconheceu seu erro e Vitória conseguiu reconduzi-la para o caminho certo, pois quem erra – lembremos da etmologia da palavra – é como alguém que vagueia perdido da estrada.

 

A vida proposta por nosso outro baluarte também nos ensina sobre corrigir os que erram. Primeiramente ele ensina a tratar os que erram como irmãos. Depois mostra que para trazer o irmão ao caminho da vida pode não bastar apenas uma correção, mas várias. Essas várias correções são graduais, sempre com o objetivo de reconduzir o irmão a Deus. Caso o irmão esteja tomado pela soberba e não consiga enxergar que está fora do caminho, devem cessar as correções, mas não o interesse pela vida do irmão. Dessa vez, o irmão deve ser o alvo das orações de quem corrige, de modo que o próprio Deus possa cuidar da alma que não percebe que está no erro. Pode acontecer, porém, que o erro de um irmão seja como uma peste capaz de contaminar os outros irmãos que estão no caminho correto. Então, se nem as orações abrirem os olhos do irmão soberbo, restará somente a mais severa das correções, em vista do bem dos demais. Afinal, a vida de cada um dos outros irmãos também é importante. E que correção é essa? Fazer o irmão enxergar que o caminho que ele está seguindo é diverso do caminho dos demais, tornando visível aos seus olhos as duas estradas que levam a lugares diferentes: a estrada do erro e a estrada da vida. Em certas situações, como diz São Bento, só tirando o irmão do seio da comunidade para ele perceber isso. Claro que a Santa Regra deve ser interpretada à luz de nosso tempo e sempre no seu espírito, ou seja, da misericórdia. Mas não faltará a quem corrige a sabedoria para corrigir ainda que seja de um modo extremo. Recordo mais uma vez que o objetivo de toda e qualquer conversão deve ser reconduzir quem erra ao acerto e que toda correção deve estar fundamentada no amor.

Portanto, se compreendermos melhor a graça que o erro traz em nossa vida e o como e o porquê de corrigirmos, certamente poderemos trilhar esse caminho da obra de misericórdia que acabamos de meditar de um modo mais fiel ao Coração de Jesus.

 

 

“Se algum irmão, frequentes vezes corrigido por qualquer culpa não se emendar, nem mesmo depois de excomungado, que incida sobre ele uma correção mais severa, isto é, use-se o castigo das varas. Se nem assim se corrigir, ou se por acaso, o que não aconteça, exaltado pela soberba, quiser mesmo defender suas ações, faça então o Abade como sábio médico: se aplicou as fomentações, os unguentos das exortações, os medicamentos das divinas Escrituras e enfim a cauterização da excomunhão e das pancadas de vara e vir que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo. Se nem dessa maneira se curar, use já agora o Abade o ferro da amputação, como diz o Apóstolo: “Tirai o mal do meio de vós” e também: “Se o infiel se vai, que se vá”, a fim de que uma ovelha enferma não contagie todo o rebanho”. (São Bento de Núrsia)

 

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Rodrigo Serva Maciel

Fundador da Comunidade Católica Árvore da Vida

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