O encanto da Vida Monástica

Tenho um grande encantamento pela vida monástica. Até janeiro do ano de 2002, nunca havia estado em um mosteiro, talvez nunca nem tivesse ouvido falar, mas desde que lá estive pela primeira vez, nunca mais deixei de ter sede daquele lugar que mergulha meu coração na presença de Deus. Há dois mosteiros com os quais tenho verdadeira amizade: Mosteiro Maria Mãe do Cristo, em Caxambu e Mosteiro Nossa Senhora das Graças, em Belo Horizonte. Ambos são femininos e estreitamente ligados à nossa comunidade, razão pela qual os conheci. O segundo é mais antigo e tem maior número de monjas, o primeiro, além de ser uma fundação mais recente, é bem mais retirado do meio urbano e conta com uma comunidade menor. Independentemente da localidade e do número de monjas, nestes mosteiros o silêncio nos envolve e penetra suavemente nosso íntimo. Aos poucos vamos guardando as palavras, pois elas parecem ferir algo sacratíssimo. Há ali um misterioso convite a calar-se. Ao toque do sino, todas se reúnem. Para as orações são quase sempre dois toques: o primeiro toque anuncia que faltam apenas alguns minutos para entoar os louvores a Deus e o segundo é o sinal de que as irmãs devem dar início à oração. A começar da Madre, entram na capela duas a duas. Reverenciam primeiramente o altar, figura do Cristo, e depois se inclinam uma diante da outra com respeito profundo. No momento da oração, as monjas se distribuem em coros, de cada lado da capela, um de frente para o outro e a oração é feita como num “diálogo cantado”. Cantam os versículos dos salmos alternando os coros com grande harmonia. O canto expressa o amor apaixonado daquelas almas esposas. Cantar, como diz Santo Agostinho, é próprio de quem ama, é próprio de um amor sempre jovem e entusiasta.
É impressionante ver monjas de 70, 80, 90 anos entrarem para a oração das horas sete vezes ao dia com coração amante, jubiloso. O corpo, não tão forte, às vezes se apóia em uma bengala, mas a alma queima de amor como em fogo ardente. Vemos muitas monjas idosas, mas muito fortes e lúcidas. Ao vê-las, somos convidados a crer que tal saúde é fruto da vida equilibrada de quem vive nos mosteiros. As refeições são tomadas em silêncio. Nada se fala. Mas se escuta uma leitura espiritual recitada por uma irmã designada para tal tarefa a cada semana. Alimenta-se o corpo e também o espírito. A comida é simples, mas o capricho nos enche de prazer ao estar à mesa. Os hóspedes têm um refeitório próprio. As monjas nos servem, mas a clausura não permite que participemos da refeição com elas. Ainda assim, em Caxambu é possível ouvir ao longe a “leitura da mesa” das monjas. Um tempo de descanso, mais um período de trabalho, outra vez a oração das horas…
Ao entardecer, o coração vai se recolhendo junto com o sol, agradecido pelo dom do dia vivido na presença de Deus. Em cada dia há um momento de recreio em que as monjas, sempre muito alegres, expansivas, partilham a vida, recebem notícias trazidas pela madre ou alguma outra irmã. Quando estamos hospedados nos mosteiros, muitas vezes temos a oportunidade de participar desses momentos de recreio. Para nós é uma prova de que a vida recolhida e silenciosa não deixa ninguém triste e cabisbaixo. Elas perguntam sobre nossa vida, se recordam de assuntos que tratamos com elas há anos! Contam histórias engraçadas, “casos” do mosteiro e sobre as notícias da atualidade.
O cotidiano monástico é de uma riqueza infinita! Creio de todo o meu coração que o mundo tem sede desta vida, desta espiritualidade simples, muito simples, mas profunda e transbordante de amor. O Senhor nos chamou a ser monges no mundo. Parece tão desafiador! Mas a maravilhosa sabedoria de Deus escolheu para nós uma vida que não se sacia com a agitação deste mundo: mergulhados nos tantos afazeres do dia a dia, nossa alma tem sede de se recolher. Evangelizamos, anunciamos o nome de Cristo, vamos a missões e retiros, mas sempre temos a sede de retornar ao segredo dos nossos “mosteiros” e na simplicidade da nossa vida, voltar à oração, ao silêncio, à convivência cotidiana com nossos irmãos.
Agradeço a Deus pelo dom da vida monástica que tanto nos ensina e é fonte de espiritualidade para nós! Bendito seja Deus por essa riqueza imensa!

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.

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