A beleza da ordem

A ordem nos mosteiros é algo de fato profético. É quase impossível estar em um mosteiro e não perceber a harmonia gerada pela ordem. A oração, o trabalho, o descanso, as refeições e cada atividade particular estão bem organizadas ao longo do dia. Há tempo oportuno para realizar cada coisa. Uma tarefa não atropela a outra. O ensinamento do Eclesiastes encontra repouso dentro dos muros do mosteiro. “Há um momento para tudo e um tempo para todo o propósito debaixo do céu” (Ecl 3,1). A primazia é dada à oração. Tudo mais vai se orientando sem ferir esta tarefa fundamental dos monges: “Nada se antepor ao ofício divino” (RB 43,3).

A ordem monástica não se expressa apenas na organização do tempo, mas também na organização dos ambientes: no mosteiro, cada coisa tem seu lugar exato. Como hóspedes, percebemos nas dependências onde somos recebidos e às quais temos acesso, que tudo é muito simples, ordenado e sóbrio. Não há muitos enfeites, nem mesmo muitos símbolos de piedade, todas as coisas são mantidas limpas e organizadas. Os jardins estão sempre bem cuidados. Conheço um mosteiro há nove anos, sei que não é muito tempo em se tratando de fundações milenares, mas cada vez que retorno, encontro tudo como deixei pela última vez. Pode parecer estranho o encanto com algo que de certa forma sugere monotonia e pouca dinamicidade, mas a razão de tal encantamento está no fato de que a ordem dos mosteiros é sinal da profundidade da vida que ali se vive. Aquilo que permanece estável se aprofunda, o que muda constantemente, tende a superficializar-se. Não confundamos aqui a superficialidade que é fruto da instabilidade com o dinamismo da ação do Espírito, sempre surpreendente, pois esta novidade, obra de Deus, é vivida no interior de quem permanece Nele(cf Jo 15, 4.9).

A ordem do tempo e das coisas também aponta para o próprio Senhor que a tudo ordena com Seu amor. Por Sua Palavra criadora, Deus transforma o caos em cosmos. Ele é o Senhor de toda ordem. Esta ordem cósmica, universal, deve refletir-se não só no ambiente em que se vive, mas no interior de cada homem. O sentido último da assimilação da ordem exterior é de fato a ordem do coração. A ordem interior e a exterior se correlacionam intimamente. Com o passar dos anos, em nossa comunidade encontramos um certo “termômetro” que nos ajuda a perceber nosso próprio interior e também o dos irmãos. O ambiente que nos cerca, muitas vezes reflete nosso próprio coração. Depois de um dia de trabalho de afazeres como se encontram nossas gavetas? Como fica a nossa cama? Qual é o estado do nosso guarda-roupa? A desordem que produzimos é muitas vezes a desordem que estamos vivendo dentro de nós. E o que fazer com tal constatação? Organizar as gavetas, o guarda-roupa, o quarto, a mesa do escritório, procurar ser sensível à beleza que a ordem expressa e fazer disso um exercício para alcançar a ordem interior. Parece fácil demais? Naamã, o Sírio, também achou simples demais e até ridículo receber a ordem do profeta para mergulhar sete vezes no Jordão a fim de ser curado da lepra, no entanto, através deste simples gesto, seu corpo foi purificado (I Rs 5,1ss). Aprendamos com a sabedoria dos monges: cada coisa tem seu lugar, cada tarefa tem seu tempo! Que assim, o Senhor transforme nosso caos em cosmos!

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Ludmila Rocha Dorella

Responsável geral da comunidade. Consagrada da comunidade de vida e celibatária.

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